Plantando vida em alto mar

Os oceanos dominam a maior parte da superfície da Terra, e apesar desta desproporção territorial, sua relação com os continentes é simbiótica, um depende do outro. Como as algas que se unem a fungos e se tornam virtualmente um terceiro ser – os líquens -, continentes e oceanos estão vitalmente conectados.

Dos oceanos os continentes recebem toda água que necessitam, por outro lado, os continentes, lavados por essas águas que tornam a vida possível, descarregam vultosas quantidades de nutrientes nos mares, tornado-os também possuidores de todo um biouniverso.

Apesar da estrutura espacial aquática ser maleável (em âmbito terrestre o deslocamento físico-energético não é pelo meio propriamente dito, e sim pelo ar), sua densidade (inércia) não permite grandes deslocamentos em pouco tempo, fazendo com que o nutriente lixiviado cicle por completo antes de atingir áreas longe da costa. Desse jeito, a vida só encontra lugar para se desenvolver nas faixas próximas ao aporte de nutrientes (sejam continentes, sejam ilhas isoladas…).

Isso significa que o alto mar é um deserto. E a analogia não para aí, pois até nesse deserto existem seus camelos, que por estarem ali, não significam que se alimentem com o que o lugar oferece. O nutriente continental entra na teia alimentar marinha sendo absorvido pela biomassa planctônica, esta é consumida por animais menores, posteriormente por animais maiores, que já podem cruzar os mares sem alimentação.

Desertos em terra firme têm pouquíssima biodiversidade, ainda menos utilidade e muita energia. E nenhuma água. Desertos em terra firma vão, se depender do homem ($), continuar sendo desertos. E é aí que para a analogia. Em alto mar temos pouquíssima biodiversidade, ainda menos utilidade e muita energia. Mas muita água!

Para produzirmos alimentos, é necessário produzir vida, e toda vida depende de água e nutrientes. Economicamente são dois itens tão caros que inviabilizam a produção em um deserto sem água, porém, se a temos em abundância, somente nos falta o nutriente (ou seja, ração, retirada dos continentes graças à energia monetária).

O oceano, além de físico-quimicamente estável (variações mínimas de temperatura, salinidade, pH, oxigênio dissolvido, outros), fator que otimiza a produtividade, ainda apresenta uma série de particularidades que expandem seu alcance produtivo.

Em terra, animais e plantas coexistem lado a lado, de forma bidimensional, diferentemente da tridimensionalidade atingida em meio aquático. Outra vantagem é que a capacidade de carga (quantidade máxima de biomassa que consegue se desenvolver de forma saudável em determinado volume, ou seja, kg de cultivo/m³) não se restringe à litragem da gaiola (análoga à currais), e sim à litragem do oceano (como se fosse estocar em um curral todas as vacas que caberiam em um grande pasto).

O movimento da água passando constantemente pela gaiola faz da capacidade de carga um fator pouco preponderante nesse ambiente (diferentemente do que se fosse feito em um açude), fazendo com que o conforto populacional seja o fator restritivo no cultivo.

Os animais do cultivo absorvem o nutriente via ração, porém não o aproveitam totalmente, havendo resíduos orgânicos após as etapas de fixação de biomassa e dos processos metabólicos, resíduos esses que nada mais são do que nutrientes para o início da teia aquática, o fitoplâncton.

Carapeba (Diapterus rhombeus).

Visualizando um cultivo em alto mar, logo nota-se a semelhança deste com um oásis produtivo verdejante de fitoplâncton, que, se por falta de níveis tróficos subseqüentes, irá simplesmente completar seu breve ciclo de vida, morrer e decantar. (correndo o risco ainda de auxiliar no controle do efeito estufa seqüestrando carbono atmosférico e depositando-o no leito oceânico). Nada impede que um segundo nível trófico também seja um segundo cultivo, como por exemplo, ostras e vieiras.

Cultivo de bivalves, exemplo de espécies que se alimentam de fitoplâncton.  Santa catarina.

Como aspecto positivo final temos o desinteresse imobiliário pelo alto mar, que é público e deverá gerar impostos (sobre área produtiva, sobre produção, concessões de área, mão-de-obra, consumo de insumos, industrialização…).

Aqüicultura, a fronteira azul na produção de alimentos, comprova que Thomas Maltus estava errado, e que a restrição humana no planeta vai se dar pelo Sol, o terceiro e mais importante elemento na feitura da vida na Terra, quando precisarmos de mais energia do que ele pode nos oferecer para contornarmos nossos desequilíbrios ambientais.

Felipe Matelli Matulovic

Engenheiro De Aquicultura

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Sobre Felipe Furtado Frigieri

Engenheiro florestal graduado pela ESALQ-USP. Interessado em discutir temas relacionados a arborização urbana, restauração florestal de ambientes degradados, horta urbana, reciclagem, criação de abelhas nativas, entre outros.
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3 respostas para Plantando vida em alto mar

  1. ricardp disse:

    Isso não é robalo.. é carapeba.. diapterus rombeus

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  2. Marcello disse:

    Mei ambiente. Tudo depende de vontade política de alguem

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