Visita a Cooperafloresta

Durante os dias 20 a 22, em uma excursão da disciplina de Sistemas Agroflorestais Diversificados da ESALQ/USP visitei a Cooperafloresta, a qual está localizada no Vale do Ribeira e envolve os municípios de Barra do Turvo (SP), Adrianópolis e Bocaiúva do Sul (PR). Nesses dias aprendi muito sobre sistemas agroflorestais diversificados (SAFs), manejo ecológico do solo e também, conheci diversas espécies utilizadas nesse sistema.

“A Cooperafloresta teve início em 1996 com o trabalho de duas famílias agricultoras. Outro ano que marcou o início de nossa história foi 1998, quando reunimos 30 famílias praticando agrofloresta e iniciamos a comercialização coletiva, direta e solidária de nossa produção.” Atualmente a cooperativa conta mais de 100 famílias inseridas na produção agroflorestal. A prática adotada por eles alia a produção agrícola e florestal à conservação da floresta, solo e água.

Simplificadamente entende-se como sistemas agroflorestais (SAF), o plantio de espécies agrícolas (milho, mandioca, cana-de-açúcar, banana, couve, alface, cenoura, mamão, inhame, batata doce, etc.) juntamente com indivíduos de porte arbustivo/arbóreo (jatobá, jaca, cajá, copaíba, feijão guandu, assa peixe, etc.). Os SAF variam dos mais simplificados (ex. eucalipto com soja) até os sistemas mais diversificados (ex. praticado na Cooperafloresta).

Nas agroflorestas diversificadas os indivíduos de crescimento lento, intermediário e rápido são plantados todos ao mesmo tempo, dessa forma, o sistema busca semelhança com o processo sucessional ocorrido em uma floresta natural.

Busca-se nos SAF diversificados o aproveitamento eficiente da energia solar, de modo, a colher produtos nos diferentes estágios sucessionais. Sobretudo, há também, um eficiente aproveitamento no uso do solo, proporcionada pela existência de diferentes tipos vegetais no sistema, as quais utilizam muito bem as diferentes camadas do solo. Tal efeito difere, por exemplo, de um monocultivo de cana-de-açúcar, no qual não há avanço na sucessão natural das espécies e as raízes aproveitam apenas uma camada de solo- por fim, este sistema caracteriza-se por ser fraco energeticamente e muito pobre em biodiversidade.

No que diz respeito à adubação nos SAFs, é comum a incorporação dos restos/resíduos vegetais (folhas, galhos, raízes, sementes, etc, este manejo garante que o solo fique vivo e fértil – por fim, as plantas ficam bem nutridas.

Normalmente quando as plantas encontram-se bem nutridas e no sistema há grande diversidade de vida, não é necessária a aplicação de defensivos químicos (altamente tóxicos), tal efeito é resultado da protocooperação entre os indivíduos. Somente sistemas perturbados ecologicamente necessitam da aplicação de biocidas – desde 2008 o Brasil lidera o ranking dos países que mais consomem agrotóxico no mundo.

Essas práticas ecológicas, evidentemente, implicam em maior economia aos sistemas agroflorestais, tanto na compra de defensivos químicos como a de adubos minerais. Por isso, os produtos agroflorestais apresentam elevada qualidade nutricional, resultando em qualidade de vida para quem o consome e o produz.

No fim desta viagem pude ver que os agricultores, que hoje estão trabalhando nas agroflorestas, e que antigamente trabalhavam em cultivos convencionais (uso de veneno, adubos minerais, degradação do solo), estão muito mais felizes. A forma de produção nos SAFs lhes permite melhor renda, melhor qualidade de vida, além disso, a prática agroflorestal torna o convívio deles com o meio, muito harmonioso.

Visita a Cooperafloresta. Nesta área foi plantado: banana, pupunha, palmito juçara, laranja, milho, inhame, mandioca, lichia e outas frutíferas. Para proteção do solo e enriquecimento do mesmo com nutrientes e matéria orgânica, deixou-se o capim crescer. Quando ele estiver grande será cortado e incorporado no solo. Tal prática evita a erosão do solo, mantém umidade mais constante e torna o ambiente favorável para desenvolvimento de macro e microorganismos benéficos.

Observa-se o cuidado no manejo numa propriedade agroflorestal. A muda de laranja está protegida por uma camada espessa de capim, as vantagens dessa prática foram comentadas na imagem acima. Cooperafloresta, Barra do Turvo-SP.

Camada de solo abaixo do capim morto. Verificamos que o solo apresenta coloração escura, isto é indicativo de matéria orgânica incorporada. Barra do Turvo - SP.

Estudantes da ESALQ/USP e agricultores discutindo a respeito da agrofloresta. Barra do Turvo-SP.

Início de uma agrofloresta, nela o produtor agroflorestal optou pelo plantio de vagem com tomate cereja, na entrelinha foi plantando banana, palmito juçara, pupunha, jaca, cajá-manga, bacupari e outras plantas nativas da região. Barra do Turvo - SP.

Plantio de abacaxi. Barra do Turvo - SP.

Casa de madeira sendo construída por agricultor cooperado a Cooperafloresta. As madeiras são obtidas do manejo das agroflorestas. Barra do Turvo - SP.

Cafezeiro no sistema agroflorestal. Barra do Turvo - SP.

Agrofloresta em estágio sucessional mais avançado. Observamos nesta área bananeiras, taioba, jaqueiras, caja-manga, café, palmito juçara, jabuticaba e outras. O manejo da luz é muito importante num SAF, a prática das podas permite a entrada de mais luz na área e assim favorece o desenvolvimento de plantas que necessitam de mais luz, ou seja, o sistema deve ser dinâmico. Barra do Turvo- SP.

Vista da região do Vale do Ribeira.É bastante comum nesta região pastos abandonados e extensas áreas de monocultura de banana, onde o uso de agrotóxicos é muito frequente. Muitos agricultores que praticavam agricultura convencional de tomate e banana enfrentavam problemas de ordem econômica, atualmente aqueles que migraram para a agrofloresta estão muito satisfeitos. Segundo relato de um agricultor que plantava tomate convencional,uma vez quando aplicava agrotóxico nos tomates desmaiou por inalar o veneno e precisou ir ao médico para ser tratado - tal situação não acontece em uma agrofloresta.

Palmito juçara. Esta palmeira é nativa da região e é muito presente nas agroflorestas da cooperafloresta. Dela pode ser comercializado o palmito, a polpa (pode ser feito sucos e creme do tipo "açaí") e as sementes para recuperação de áreas degradadas. Barra do Turvo - SP.

 

Felipe Furtado Frigieri

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Sobre Felipe Furtado Frigieri

Engenheiro florestal graduado pela ESALQ-USP. Interessado em discutir temas relacionados a arborização urbana, restauração florestal de ambientes degradados, horta urbana, reciclagem, criação de abelhas nativas, entre outros.
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5 respostas para Visita a Cooperafloresta

  1. Felipe seria de uma grande importância sua visita ao nossa cooperativa temos certeza que você ira se maravilhar com nosso progeto. Hoje em dia ele encontra-se bem amplo . Alguns de nossos agrocultores criaram um setor de alojamento para futuros ecólogos,pesquisadores,estudantes universitários. Se estiver realmente interessado posso tentar arrumar aqui sua visita é claro com nossos agrocultores e representantes

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  2. CLAUDIANA BONRRUQUE DA MOTA disse:

    É CLARO QUE QUANDO DISSE ALOJAMENTO DISSE NO SENTIDOS QUE ESSES ESTUDANTES POSSAM APRIMORAR SEU S CONHECIMENTOS.

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    • Oi Claudiana.
      Que boa notícia.
      Gostaria muito de voltar aí, quando fui até a Cooperafloresta eu fiquei pouco tempo, gostaria de ficar um período maior e poder conhecer melhor a realidade de vocês. No momento estou com uns projetos em Piracicaba e no momento fica complicado eu agendar um visita com vocês, mas assim que eu estiver mais tranquilo entrarei em contato com você.
      Muito obrigado pelo convite e parabéns pelo trabalho maravilhoso desenvolvido por vocês aí.

      ABraços,

      Felipe Furtado

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  3. gostaria de visitar a cooperafloresta; no mes de julho. Como fazer?

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